De manhãzinha, sou SONS.
_ do bem-te-vi, despertador amoroso, na varanda, no telhado, na antena, no gozo;
_ de Nina, a matar a saudade dormida sozinha em seu quarto;
_ das maritacas em voo escandaloso a sublinhar o café da manhã preguiçoso;
_ do sino da igreja São Francisco Xavier a sublimar o despertar, lembrando que é de bom tom saudar, agradecer ao CriadordeTudoqueHá;
_ do sinal da escola a acordar juvenis mentes e acolá, a minha também a aproveitar;
_ do Hino Nacional escolar, somente a tocar, de minha infância ouço cada voz a cantar solene, compenetrada, diante do diretor militar;
_ de Nina a correr voltas entre salas e varandas, a perseguir pássaros reais e imaginários, em mágica ciranda;
_ das crianças, na quadra do colégio, a incentivar parceiros e xingar adversários, num jogo de vida e morte diário;
_ da máquina de lavar roupa precisada de ser trocada – a coitada!
Com o andar do dia, sou CHEIROS.
_ do café a cutucar da casa todo canto que há;
_ do hidratante em cabelo e corpo, tocado pela brisa que vem do Porto;
_ da cozinha vizinha que entra pela casa antes da minha;
_ da “caquinha” de Nina em miados a me avisar que meus préstimos são precisados;
_ de chuva que cai em algum lugar visitado por minha alma milenar;
_ da dama da noite que se despede, na varanda, depois de sua única noite de festança;
_ do incenso de lavanda, em cada cômodo, a lavar miasmas de qualquer noturno incômodo;
_ do amaciante de roupas que “faz a maluca” brincando com a brisa vinda do Maciço da Tijuca;
_ do chá de capim cidreira colhido na jardineira.
À tarde, sou SABORES.
_ da comida do peixinho índigo a me mordiscar o dedo, saboroso riso;
_ da prosa gostosa com a varanda octogenária de dona Dália (a filha distante anda uma mala!);
_ da poesia do beija-flor, indiferente a Nina, no bouganville (é bom que ele não vacile!);
_ dos pimentões e tomates que deixam de enfeitar vasos, pedindo para serem mais bem usados;
_ da salsa que exige igual destino, pois este é seu plano divino;
_ da cozinha e seus provares, paladares, salivares;
_ do livro do momento, outros me espreitam de vários lugares do apartamento.
À noite, sou quietude.
_ do me pôr com o sol euforia;
_ da solidão a despedir o dia;
_ do olhar adormecer;
_ do me fechar em mim;
_ do acordar o ver;
_ do Ser sem fim;
_ do despertar com calma palma...
a alma.
Do que Sou chego mais perto.
E só então é que desperto.

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